quinta-feira, 24 de março de 2011

O menino e os bombons


No leste da cidade o menino Felipe ainda não vivia. Sua mãe lavava para fora, sua irmã tomava conta dele, do irmão mais novo e de si mesma. Em semana, dona Socorro os deixa na Escola Municipal logo de manhã, voltava para casa e tentaria lavar os montes de roupas sujas de seus clientes. Sobrevivia da sujeira dos outros.
Sua clientela era do bairro mesmo. Vizinhos, conhecidos da venda do Seu Miguel, um comerciante cearense vindo para ter vida melhor. A senhora ao lado da casa dela, Dona Claudete, era uma cinquentona magrinha, já passara da terceira cirurgia do olho esquerdo, andava se encontrando com o filho do pedreiro da rua principal, Manuel. Sabe-se porque Fátima, a secretária do comerciante havia comentado com as vizinhas da esquina, às duas da tarde, quando Manuel entrou na casa de Claudete. Demoraram tanto lá dentro que cansaram de esperar. À noite, Socorro já sabia de tudo.
Felipe saía da escola sem esperar a mãe. Menino esperto, não esperava pelos outros: ia lá e fazia. Criou-se na rua, já que a mãe nadava na porcaria (coitada, não tinha culpa) e o pai (este sim, culpado) estava preso por assalto à mão armada. À tarde, depois do almoço, ia para a rua soltar papagaio, tamanho sol de rachar a cabeça, porque nesses dias de outubro é tempo de seca, e ainda descalço, criando em seus pés micoses e frieiras. Se tinha jeito, agora é a aparência de menino de rua.
Já passava das duas horas quando Dona Socorro tinha acabado de lavar metade da roupa. Era de surpresa acabar tão rápido porque sempre demorava, menos quando, era o caso, colocava às alturas, no seu gravador de segunda mão, os lamentos de desventuras amorosas da Calypso. Saiu para a rua e gritou o nome de Felipe anunciando comida na mesa. Seus irmãos já estavam sentados e não demorou muito para Socorro servi-los e comer junto com eles, como toda família pobre.
À mesa, Felipe viveu. Sentou-se sem lavar as mãos, como de costume, ao lado de seu irmão que estava ao lado de irmã, Raquel. Ele comia desesperado já que entrava pela tarde, mas seus irmãos nem tanto. Deixou sem querer grãos cozidos de feijão, que eram poucos no prato, caírem da colher. Isto sempre acontecia. Abaixou a cabeça para vê-los entre as pernas, mas quando levantou-a, perdera a fome. Sentiu uma mão pesar sobre sua cara, que tinha aspecto de bexiga vermelha: inchada e frágil. Fora sua mãe justamente pelos caroços de feijão espalhados. Ação essa da mãe não era esperada de modo algum por Felipe, aliás, ele não sabia onde estava naquela hora, muito menos quem era, já que estava movido agora pelo medo.
Socorro mergulhara no mais profundo silêncio. Não só ela, mas a casa toda. E depois daquilo, Felipe viu que não era o único movido pelo medo. Viu seu irmão, Rodrigo, levar uma espetada de garfo de Raquel. Ele viu seu irmão ao mesmo tempo em que se via: uma criança submissa, claro por medo. Naquele momento, embora criança, deu-se conta de que não estava mais no seu mundo habitual, estava em outro mundo, num que não era tudo perfeito. Viu-se a necessidade de pensar sobre si, sobre as suas relações não só com sua mãe, mas com todos os outros que encontraria na rua. Tinha agora que lutar pela sua liberdade e pelos seus desejos. Pela sua sobrevivência. A partir daquele momento, da hora do jantar, sagrada para Socorro, Felipe pensava sua existência. Valia agora a lei do mais forte. Saíra do humano para o animal. As crianças tinham ido dormir, sem escovar os dentes, como de costume, já que a mãe estava com muita raiva para lembrar de mandá-los.
No outro dia, a mesma coisa: Acordar cedo para ir à escola. Claro sem esquecer das marmitas para pegar sopa para complementar o almoço. Mas neste dia, as marmitas não seriam necessárias.
Socorro contava trinta e um anos. Não era feia por completo, mas, por parir três filhos, deixa a desejar o homem sedento de carne feminina. Quando voltava da escola, passou pela frente da venda de Miguel e olhou-o. Ele fez o mesmo para ela tão rápido porque estava passando troco para os fregueses. Entretanto, a troca de olhares foi significativa: ele sorriu e ele ficou estabanado, acabou por dar R$15,35 de troco quando era pra dar menos dez, pois a compra deu R$ 4,65 e o cliente deu uma nota de dez reais. Ela sorriu a mostrar seus dentes brancos: era dentadura. Uma pessoa pobre ia ter dentes brancos? Ficou vermelha embora não se notasse tanto já que grelha ao sol de depois do meio dia. Foi pra casa e Miguel ficou na venda.
Depois de lavar roupa e a louça, a mãe de Felipe pensando na troca de olhares, com um nervosismo cruel, o da dúvida, decidiu ir até a venda. Parou e pensou: vou perguntar o preço de sabão! E foi. Durante o caminho, pensou que, se se engraçasse para Miguel, 57 anos, gordo e de cabelos brancos, não precisaria se preocupar feito doida para comprar comida. Ele daria para ela. Claro, em troca de alguns favores. Nada sai de graça. Chegou e perguntou o preço de sabão. Miguel pensou: ela vem comprar sabão todo dia aqui e não sabe o preço? Tem coisa aí! E tinha! Tratou logo de engatar uma visita noturna à casa de Socorro, hora esta do 13° sono de sua esposa, Valquíria, sexagenária. Quando bateu à porta, Socorro tratou logo de abri-la. E ele, tratou logo de pegar nas suas pernas ainda em pé e subindo pela camisola, até introduzir seu dedo do meio todo em sua vagina, arrancando um grito seco e agudo.
Os irmãos de Felipe dormiam tranqüilos, mas ele ouvia o bater incessante da cama na parede, com os olhos derramando lágrimas por sua mãe, mas com raiva e ódio. Ele vivia.
No outro dia, sábado, Felipe viveu até à noite. Socorro às oito da manhã já tinha uma trouxa enorme de roupas sujas para lavar. Os meninos ficaram assistindo aos desenhos. Ela tinha ido antes do meio dia à venda de Miguel. Felipe observava tudo feito leão à espera de veados. Dez minutos depois, ela chega com quatro fatias de bife uma lata de conserva, cebola e tomate. Felipe ainda observava. Eles almoçaram muito bem naquele dia, pois com o bife bem temperado, comeram farofa de conserva, arroz e feijão traumatizante de ontem. Isto era o que tomava Felipe. À tarde, os três foram brincar na rua, como de costume: Raquel, de bonecas com as meninas e o Huguinho; Rodrigo de puxar carrinhos com cordões de sapatos; e Felipe de jogar bola. Um dos amigos deste foi chamado por sua mãe para ir à venda comprar sabão em pedra para lavar louça. Jorge foi até a venda, foi pegar o sabão na prateleira, e voltou enquanto Felipe esperava perto do caixa. Deu o dinheiro para Miguel e este se virou para a gaveta para guardar o dinheiro pegar o troco. Neste momento, Jorge com uma ânsia de mordida de leão terrível, afundou a mão no pote de bombons e de lá guardara uns dez no bolso, sem que o vendeiro percebesse. Isto tocou Felipe que já olhara torto para o velho. Os dois, voltando para a casa de Jorge para entregar o sabão à mãe dividiram os bombons. Felipe quando recebeu esses bombons de Jorge, os fitou: o doce ia matar, temporariamente, a fome e tinha sido prazeroso roubar Miguel, assim como é prazeroso para o leão deitar de bucho cheio na mata rasteira depois de estraçalhar um veado. Não teve outro pensamento: voltou à venda para roubar bombons. Dessa vez, perguntou para o vendeiro de havia cerol, este ficou em dúvida e olhou para trás para conferir. Quando virou, Felipe também com a voracidade do leão mergulhou sua mão no pote de bombons e os colocou no bolso. O velho quando volveu para Felipe disse que não tinha mais e este voltou para a rua e distribuiu bombons para seus amigos. Agora pensara: não era a fome que o fazia roubar, era o ódio.
Às sete horas, Felipe voraz ia voltar uma última vez à venda. Foi perguntar a mesma coisa, se tinha cerol. O vendeiro, tonto, foi, de novo, ver se tinha. E Felipe, pegou uma dúzia de bombons, mais do que antes e nem se quer esperou Miguel lhe falar, pegou os bombons e saiu. Entretanto, o filho do velho, Augusto, rapagão de 24 anos, que carregava lata de areia e cimento desde os quinze nos ombros, ombros de Hércules, viu o moleque roubar. Ficou possesso: leoa com defendendo seus filhotes. Era uma cólera infinita que não pensava mais, também era leão! Sacou um trinta e oito da algibeira e à queima-roupa, em termos, porque Felipe estava nu da cintura para cima e de costas, matou o moleque. Ele viveu. Augusto mais ainda. Eram animais vorazes em luta. Venceu o mais forte.
Socorro ouviu o tiro de casa, mas nem atentou. Só depois que Claudete que estava na beira do portão da outra vizinha, foi a casa dela para falar que Augusto matara seu filho. A mãe, leoa que lambe o cadáver do filhote, fitou Felipe e este, ainda agonizando, disse que a odiava, mas errara. Nunca lhe ensinara isso. Mas a amava. E viveu.

Olhos verdes

“E quero aceitar minha liberdade sem pensar o
que muitos acham: que existir
é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece.
Existir não é lógico.”
Clarice Lispector.

“Na foto, sorri e me olha nos olhos,
e eu sorrio no sorriso dela, e olho nos olhos dela e
consigo sentir seu perfume. “O que você viu em mim...!?”;
nenhuma resposta.”
Perpétua D’Avulsa


Seus olhos verdes. Quando fecho os meus, olho os teus e de relance, sinto meu rosto pesar face o teu. Dois. Agora, neste momento, só um.
De mãos geladas, seqüestra a minha direita e unimos mais uma vez o momento e o íntimo.
Que é isso?
Je ne sais pas.
Deus, isto confunde minha cabeça, que falo em outra língua. Talvez de propósito: francês é a língua que me dá mais felicidade e sua sonoridade ecoa no mesmo íntimo, feito folha seca bailando pela brisa de um dia nublado.
Pego um livro. À medida que vou lendo, não me envolvo como bom leitor que sou. Não. Distancio-me ainda mais. Viajo no tempo e espaço em busca de mais um encontro facial... Não! Do mesmo encontro facial: os olhos e os lábios. Essa, acredito, é a finalidade da memória.
Fecho o livro. Olho meu telefone. Ele toca, atendo e tenho um mero feixe de felicidade. Mas não. O telefone não toca, é apenas ilusão minha de tanto querer ouvi-lo tocar.
Na cama, ainda, fico inerte. Como quem precisasse de algo, uma espécie de combustível para mover-me, talvez um sopro de vida. Pensando assim, meu combustível é escasso. É caro. Talvez não tenha preço que pague por.
Já passa da meia noite. Sim, olhei o relógio. Vou escovar os dentes. Quero falar ao telefone com hálito perfumado. Deus! Como se cheiro viajasse pelas fibras óticas enterradas... Ah, é a perfeição! Angustiante ar de perfeição que toma as rédeas do meu ser. O telefone não toca.
Que é isso?
Acho que sei. Outro dia tive a oportunidade de presenciar ato de amor, seja lá o que for isso, palavra estranha. Uma moça sentada a minha frente recebeu um convite para ir ao cinema. Olhou fundo quem a tinha convidado e pôs-se a chorar. Deus, que força estranha aos meus olhos capaz de, através de uma única palavra, assolar o coração de uma pobre moça! Disse ela implorando vida: “Se você quer minha amizade, não diga mais cinema”. Cinema. Bastou tal palavra. Sim, acreditem: a vida começou com palavras. Isso de alguma forma soprou no meu íntimo: leve como brisa comum, mas avassalador como o próprio sopro da morte.
Sim, lembrei! Os mesmos olhos verdes revelaram o que já sabia, mas não sabia que sabia. Usarei agora o que Clarice Lispector usou: (explosão). E por inacreditável que pareça, foi através de palavras. Ah, sim, a vida começa com palavras.
Simples: estava preocupado comigo e perguntou à sogra onde eu estava. Ela não sabia e estava preocupada, pois a situação "não estava nada bem". Essas palavras que usou e quando as usou, uma onda da mesma angústia me tomou. Pus-me a chorar incessantemente. E eu me perguntava: "quando vou parar de chorar?" Chorei mais ainda quando os mesmos olhos verdes se dispuseram a olhar-me por nada em troca. Mas por que eu choro? Que é isso?
Assim como a voz viaja pelos fios óticos enterrados, sinto-me de volta de uma viagem. Deus, são duas e dezesseis! Deito-me novamente. Onde estava? Ah, sim, os olhos verdes... Sempre eles. Por eles a loucura existe. Por eles Eu existo. Deus o que é isso?
Talvez saiba. Acreditem: os mesmos olhos verdes me disseram num momento de extremo medo. Medo puramente adolescente comparado a um enjôo constante, mas não é ruim, pelo contrário, é maravilhoso! Por Deus, o que falo? Sei de minha condição: Não sei de mim quando não sei dele. Meu rosto se perde na gravidade quando não se apóia no dele. Minhas mãos são frias, geladas, pedras, despercebidas quando não se entrelaçam nas dele. Minhas pálpebras pesam em sua imagem e as serenas águas salgadas da solidão banham a praia dos meus olhos fazendo desaparecer a pequena nau de vida no horizonte deles e, de repente, num simples piscar de olhos, as mesmas águas caem da altura de uma cachoeira. Meu corpo é frio todo, não tem gravidade alguma também, só quando sobre o dele. Aí se faz calor... Deus! Eu não sabia: como sou tão fraco e vulnerável! Ah, três horas! Sei de minha condição.
Meu quarto é escuro. As paredes são brancas, mas não enxergo nada além de nada. Não vejo mais os olhos verdes que me desafiaram a um duelo de espadas na noite fria, triste e nublada do Centro. Aliás, não enxergo absolutamente nada. Estou no meu quarto. Entretanto, não tenho medo. Sou escuridão: a solidão me obriga a ser. Portanto, via-o e via-me nos olhos verdes.
Nessas profundezas da escuridão do meu quarto, voltei àquelas ruas sujas. Eram da mesma forma que eram no dia anterior: feias, sem amor, cercada de torres mortas. No mais, sem esperança. Talvez sem a mesma esperança minha, nossa. Andando pelas ruas, percebi quão vazia era a vida sem o verde de esperança: a simples mas chocante inexistência que passava por mim e que circulava por elas, procurando o nada e esperando que o nada as achasse. O nada. A esperança não existe com nada que procura por ela. Sentei no mesmo lugar que fui estreante na viagem ao universo do verde. Olhei para a mesma direção em que se iniciou a viagem e, com um estranho desejo de se repetir – estranho porque sabia da impossibilidade de concretização, aliás, sei de minha condição – fechei os olhos, quando os abri, via escuridão, simples escuridão. Vi também o mesmo inexistente que pairava por aquelas ruas tristes, esmagadas pelo céu nublado. Estava no meu quarto, apenas com a memória dos olhos verdes.
Nunca me perguntei, mas por que verdes? Outrora me disseram que verde é a cor da esperança. Sim, talvez seja isso. Pandora fez bem em não deixar a Esperança fugir da caixa proibida: é infinita. Refugiar-me nos seus olhos é encher-me e transbordar-me de esperança, viajando feito cometa extasiado no céu verde de amor sem fim.
Talvez difícil de compreender as palavras ditas naquele duelo. Assolaram-me. Ao mesmo tempo confortantes e suplicantes; ao mesmo tempo angustiantes e salvadoras. Talvez não lembre exatamente quais as palavras, pois me deixaram paralisado no joelho, pois me preocupava em me sustentar. Deus, como esquecer!? Outra vez, sem chance de fechar os olhos, uso o magnífico poder da memória e ouço aqueles doces tilintares de espadas: "Acho que você está apaixo'c'ado".

31 de dezembro de 2010, às 01:36.