No leste da cidade o menino Felipe ainda não vivia. Sua mãe lavava para fora, sua irmã tomava conta dele, do irmão mais novo e de si mesma. Em semana, dona Socorro os deixa na Escola Municipal logo de manhã, voltava para casa e tentaria lavar os montes de roupas sujas de seus clientes. Sobrevivia da sujeira dos outros.
Sua clientela era do bairro mesmo. Vizinhos, conhecidos da venda do Seu Miguel, um comerciante cearense vindo para ter vida melhor. A senhora ao lado da casa dela, Dona Claudete, era uma cinquentona magrinha, já passara da terceira cirurgia do olho esquerdo, andava se encontrando com o filho do pedreiro da rua principal, Manuel. Sabe-se porque Fátima, a secretária do comerciante havia comentado com as vizinhas da esquina, às duas da tarde, quando Manuel entrou na casa de Claudete. Demoraram tanto lá dentro que cansaram de esperar. À noite, Socorro já sabia de tudo.
Felipe saía da escola sem esperar a mãe. Menino esperto, não esperava pelos outros: ia lá e fazia. Criou-se na rua, já que a mãe nadava na porcaria (coitada, não tinha culpa) e o pai (este sim, culpado) estava preso por assalto à mão armada. À tarde, depois do almoço, ia para a rua soltar papagaio, tamanho sol de rachar a cabeça, porque nesses dias de outubro é tempo de seca, e ainda descalço, criando em seus pés micoses e frieiras. Se tinha jeito, agora é a aparência de menino de rua.
Já passava das duas horas quando Dona Socorro tinha acabado de lavar metade da roupa. Era de surpresa acabar tão rápido porque sempre demorava, menos quando, era o caso, colocava às alturas, no seu gravador de segunda mão, os lamentos de desventuras amorosas da Calypso. Saiu para a rua e gritou o nome de Felipe anunciando comida na mesa. Seus irmãos já estavam sentados e não demorou muito para Socorro servi-los e comer junto com eles, como toda família pobre.
À mesa, Felipe viveu. Sentou-se sem lavar as mãos, como de costume, ao lado de seu irmão que estava ao lado de irmã, Raquel. Ele comia desesperado já que entrava pela tarde, mas seus irmãos nem tanto. Deixou sem querer grãos cozidos de feijão, que eram poucos no prato, caírem da colher. Isto sempre acontecia. Abaixou a cabeça para vê-los entre as pernas, mas quando levantou-a, perdera a fome. Sentiu uma mão pesar sobre sua cara, que tinha aspecto de bexiga vermelha: inchada e frágil. Fora sua mãe justamente pelos caroços de feijão espalhados. Ação essa da mãe não era esperada de modo algum por Felipe, aliás, ele não sabia onde estava naquela hora, muito menos quem era, já que estava movido agora pelo medo.
Socorro mergulhara no mais profundo silêncio. Não só ela, mas a casa toda. E depois daquilo, Felipe viu que não era o único movido pelo medo. Viu seu irmão, Rodrigo, levar uma espetada de garfo de Raquel. Ele viu seu irmão ao mesmo tempo em que se via: uma criança submissa, claro por medo. Naquele momento, embora criança, deu-se conta de que não estava mais no seu mundo habitual, estava em outro mundo, num que não era tudo perfeito. Viu-se a necessidade de pensar sobre si, sobre as suas relações não só com sua mãe, mas com todos os outros que encontraria na rua. Tinha agora que lutar pela sua liberdade e pelos seus desejos. Pela sua sobrevivência. A partir daquele momento, da hora do jantar, sagrada para Socorro, Felipe pensava sua existência. Valia agora a lei do mais forte. Saíra do humano para o animal. As crianças tinham ido dormir, sem escovar os dentes, como de costume, já que a mãe estava com muita raiva para lembrar de mandá-los.
No outro dia, a mesma coisa: Acordar cedo para ir à escola. Claro sem esquecer das marmitas para pegar sopa para complementar o almoço. Mas neste dia, as marmitas não seriam necessárias.
Socorro contava trinta e um anos. Não era feia por completo, mas, por parir três filhos, deixa a desejar o homem sedento de carne feminina. Quando voltava da escola, passou pela frente da venda de Miguel e olhou-o. Ele fez o mesmo para ela tão rápido porque estava passando troco para os fregueses. Entretanto, a troca de olhares foi significativa: ele sorriu e ele ficou estabanado, acabou por dar R$15,35 de troco quando era pra dar menos dez, pois a compra deu R$ 4,65 e o cliente deu uma nota de dez reais. Ela sorriu a mostrar seus dentes brancos: era dentadura. Uma pessoa pobre ia ter dentes brancos? Ficou vermelha embora não se notasse tanto já que grelha ao sol de depois do meio dia. Foi pra casa e Miguel ficou na venda.
Depois de lavar roupa e a louça, a mãe de Felipe pensando na troca de olhares, com um nervosismo cruel, o da dúvida, decidiu ir até a venda. Parou e pensou: vou perguntar o preço de sabão! E foi. Durante o caminho, pensou que, se se engraçasse para Miguel, 57 anos, gordo e de cabelos brancos, não precisaria se preocupar feito doida para comprar comida. Ele daria para ela. Claro, em troca de alguns favores. Nada sai de graça. Chegou e perguntou o preço de sabão. Miguel pensou: ela vem comprar sabão todo dia aqui e não sabe o preço? Tem coisa aí! E tinha! Tratou logo de engatar uma visita noturna à casa de Socorro, hora esta do 13° sono de sua esposa, Valquíria, sexagenária. Quando bateu à porta, Socorro tratou logo de abri-la. E ele, tratou logo de pegar nas suas pernas ainda em pé e subindo pela camisola, até introduzir seu dedo do meio todo em sua vagina, arrancando um grito seco e agudo.
Os irmãos de Felipe dormiam tranqüilos, mas ele ouvia o bater incessante da cama na parede, com os olhos derramando lágrimas por sua mãe, mas com raiva e ódio. Ele vivia.
No outro dia, sábado, Felipe viveu até à noite. Socorro às oito da manhã já tinha uma trouxa enorme de roupas sujas para lavar. Os meninos ficaram assistindo aos desenhos. Ela tinha ido antes do meio dia à venda de Miguel. Felipe observava tudo feito leão à espera de veados. Dez minutos depois, ela chega com quatro fatias de bife uma lata de conserva, cebola e tomate. Felipe ainda observava. Eles almoçaram muito bem naquele dia, pois com o bife bem temperado, comeram farofa de conserva, arroz e feijão traumatizante de ontem. Isto era o que tomava Felipe. À tarde, os três foram brincar na rua, como de costume: Raquel, de bonecas com as meninas e o Huguinho; Rodrigo de puxar carrinhos com cordões de sapatos; e Felipe de jogar bola. Um dos amigos deste foi chamado por sua mãe para ir à venda comprar sabão em pedra para lavar louça. Jorge foi até a venda, foi pegar o sabão na prateleira, e voltou enquanto Felipe esperava perto do caixa. Deu o dinheiro para Miguel e este se virou para a gaveta para guardar o dinheiro pegar o troco. Neste momento, Jorge com uma ânsia de mordida de leão terrível, afundou a mão no pote de bombons e de lá guardara uns dez no bolso, sem que o vendeiro percebesse. Isto tocou Felipe que já olhara torto para o velho. Os dois, voltando para a casa de Jorge para entregar o sabão à mãe dividiram os bombons. Felipe quando recebeu esses bombons de Jorge, os fitou: o doce ia matar, temporariamente, a fome e tinha sido prazeroso roubar Miguel, assim como é prazeroso para o leão deitar de bucho cheio na mata rasteira depois de estraçalhar um veado. Não teve outro pensamento: voltou à venda para roubar bombons. Dessa vez, perguntou para o vendeiro de havia cerol, este ficou em dúvida e olhou para trás para conferir. Quando virou, Felipe também com a voracidade do leão mergulhou sua mão no pote de bombons e os colocou no bolso. O velho quando volveu para Felipe disse que não tinha mais e este voltou para a rua e distribuiu bombons para seus amigos. Agora pensara: não era a fome que o fazia roubar, era o ódio.
Às sete horas, Felipe voraz ia voltar uma última vez à venda. Foi perguntar a mesma coisa, se tinha cerol. O vendeiro, tonto, foi, de novo, ver se tinha. E Felipe, pegou uma dúzia de bombons, mais do que antes e nem se quer esperou Miguel lhe falar, pegou os bombons e saiu. Entretanto, o filho do velho, Augusto, rapagão de 24 anos, que carregava lata de areia e cimento desde os quinze nos ombros, ombros de Hércules, viu o moleque roubar. Ficou possesso: leoa com defendendo seus filhotes. Era uma cólera infinita que não pensava mais, também era leão! Sacou um trinta e oito da algibeira e à queima-roupa, em termos, porque Felipe estava nu da cintura para cima e de costas, matou o moleque. Ele viveu. Augusto mais ainda. Eram animais vorazes em luta. Venceu o mais forte.
Socorro ouviu o tiro de casa, mas nem atentou. Só depois que Claudete que estava na beira do portão da outra vizinha, foi a casa dela para falar que Augusto matara seu filho. A mãe, leoa que lambe o cadáver do filhote, fitou Felipe e este, ainda agonizando, disse que a odiava, mas errara. Nunca lhe ensinara isso. Mas a amava. E viveu.
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