quinta-feira, 24 de março de 2011

Olhos verdes

“E quero aceitar minha liberdade sem pensar o
que muitos acham: que existir
é coisa de doido, caso de loucura. Porque parece.
Existir não é lógico.”
Clarice Lispector.

“Na foto, sorri e me olha nos olhos,
e eu sorrio no sorriso dela, e olho nos olhos dela e
consigo sentir seu perfume. “O que você viu em mim...!?”;
nenhuma resposta.”
Perpétua D’Avulsa


Seus olhos verdes. Quando fecho os meus, olho os teus e de relance, sinto meu rosto pesar face o teu. Dois. Agora, neste momento, só um.
De mãos geladas, seqüestra a minha direita e unimos mais uma vez o momento e o íntimo.
Que é isso?
Je ne sais pas.
Deus, isto confunde minha cabeça, que falo em outra língua. Talvez de propósito: francês é a língua que me dá mais felicidade e sua sonoridade ecoa no mesmo íntimo, feito folha seca bailando pela brisa de um dia nublado.
Pego um livro. À medida que vou lendo, não me envolvo como bom leitor que sou. Não. Distancio-me ainda mais. Viajo no tempo e espaço em busca de mais um encontro facial... Não! Do mesmo encontro facial: os olhos e os lábios. Essa, acredito, é a finalidade da memória.
Fecho o livro. Olho meu telefone. Ele toca, atendo e tenho um mero feixe de felicidade. Mas não. O telefone não toca, é apenas ilusão minha de tanto querer ouvi-lo tocar.
Na cama, ainda, fico inerte. Como quem precisasse de algo, uma espécie de combustível para mover-me, talvez um sopro de vida. Pensando assim, meu combustível é escasso. É caro. Talvez não tenha preço que pague por.
Já passa da meia noite. Sim, olhei o relógio. Vou escovar os dentes. Quero falar ao telefone com hálito perfumado. Deus! Como se cheiro viajasse pelas fibras óticas enterradas... Ah, é a perfeição! Angustiante ar de perfeição que toma as rédeas do meu ser. O telefone não toca.
Que é isso?
Acho que sei. Outro dia tive a oportunidade de presenciar ato de amor, seja lá o que for isso, palavra estranha. Uma moça sentada a minha frente recebeu um convite para ir ao cinema. Olhou fundo quem a tinha convidado e pôs-se a chorar. Deus, que força estranha aos meus olhos capaz de, através de uma única palavra, assolar o coração de uma pobre moça! Disse ela implorando vida: “Se você quer minha amizade, não diga mais cinema”. Cinema. Bastou tal palavra. Sim, acreditem: a vida começou com palavras. Isso de alguma forma soprou no meu íntimo: leve como brisa comum, mas avassalador como o próprio sopro da morte.
Sim, lembrei! Os mesmos olhos verdes revelaram o que já sabia, mas não sabia que sabia. Usarei agora o que Clarice Lispector usou: (explosão). E por inacreditável que pareça, foi através de palavras. Ah, sim, a vida começa com palavras.
Simples: estava preocupado comigo e perguntou à sogra onde eu estava. Ela não sabia e estava preocupada, pois a situação "não estava nada bem". Essas palavras que usou e quando as usou, uma onda da mesma angústia me tomou. Pus-me a chorar incessantemente. E eu me perguntava: "quando vou parar de chorar?" Chorei mais ainda quando os mesmos olhos verdes se dispuseram a olhar-me por nada em troca. Mas por que eu choro? Que é isso?
Assim como a voz viaja pelos fios óticos enterrados, sinto-me de volta de uma viagem. Deus, são duas e dezesseis! Deito-me novamente. Onde estava? Ah, sim, os olhos verdes... Sempre eles. Por eles a loucura existe. Por eles Eu existo. Deus o que é isso?
Talvez saiba. Acreditem: os mesmos olhos verdes me disseram num momento de extremo medo. Medo puramente adolescente comparado a um enjôo constante, mas não é ruim, pelo contrário, é maravilhoso! Por Deus, o que falo? Sei de minha condição: Não sei de mim quando não sei dele. Meu rosto se perde na gravidade quando não se apóia no dele. Minhas mãos são frias, geladas, pedras, despercebidas quando não se entrelaçam nas dele. Minhas pálpebras pesam em sua imagem e as serenas águas salgadas da solidão banham a praia dos meus olhos fazendo desaparecer a pequena nau de vida no horizonte deles e, de repente, num simples piscar de olhos, as mesmas águas caem da altura de uma cachoeira. Meu corpo é frio todo, não tem gravidade alguma também, só quando sobre o dele. Aí se faz calor... Deus! Eu não sabia: como sou tão fraco e vulnerável! Ah, três horas! Sei de minha condição.
Meu quarto é escuro. As paredes são brancas, mas não enxergo nada além de nada. Não vejo mais os olhos verdes que me desafiaram a um duelo de espadas na noite fria, triste e nublada do Centro. Aliás, não enxergo absolutamente nada. Estou no meu quarto. Entretanto, não tenho medo. Sou escuridão: a solidão me obriga a ser. Portanto, via-o e via-me nos olhos verdes.
Nessas profundezas da escuridão do meu quarto, voltei àquelas ruas sujas. Eram da mesma forma que eram no dia anterior: feias, sem amor, cercada de torres mortas. No mais, sem esperança. Talvez sem a mesma esperança minha, nossa. Andando pelas ruas, percebi quão vazia era a vida sem o verde de esperança: a simples mas chocante inexistência que passava por mim e que circulava por elas, procurando o nada e esperando que o nada as achasse. O nada. A esperança não existe com nada que procura por ela. Sentei no mesmo lugar que fui estreante na viagem ao universo do verde. Olhei para a mesma direção em que se iniciou a viagem e, com um estranho desejo de se repetir – estranho porque sabia da impossibilidade de concretização, aliás, sei de minha condição – fechei os olhos, quando os abri, via escuridão, simples escuridão. Vi também o mesmo inexistente que pairava por aquelas ruas tristes, esmagadas pelo céu nublado. Estava no meu quarto, apenas com a memória dos olhos verdes.
Nunca me perguntei, mas por que verdes? Outrora me disseram que verde é a cor da esperança. Sim, talvez seja isso. Pandora fez bem em não deixar a Esperança fugir da caixa proibida: é infinita. Refugiar-me nos seus olhos é encher-me e transbordar-me de esperança, viajando feito cometa extasiado no céu verde de amor sem fim.
Talvez difícil de compreender as palavras ditas naquele duelo. Assolaram-me. Ao mesmo tempo confortantes e suplicantes; ao mesmo tempo angustiantes e salvadoras. Talvez não lembre exatamente quais as palavras, pois me deixaram paralisado no joelho, pois me preocupava em me sustentar. Deus, como esquecer!? Outra vez, sem chance de fechar os olhos, uso o magnífico poder da memória e ouço aqueles doces tilintares de espadas: "Acho que você está apaixo'c'ado".

31 de dezembro de 2010, às 01:36.

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